Estratégias nutricionais voltadas à melhoria da eficiência
e da saúde dos rebanhos estão entre os temas em destaque no 15º Simpósio Brasil
Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos
Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet). Nesta quinta-feira (8), a programação
científica colocou em pauta o uso de probióticos nos sistemas de produção de
leite e o papel das fontes lipídicas na produtividade, na composição dos
sólidos do leite e na saúde das vacas leiteiras.
O uso de probióticos na pecuária leiteira é uma ferramenta
importante para melhorar a saúde gastrointestinal do rebanho, por ser capaz de
potencializar o aproveitamento dos nutrientes e, por consequência, a eficiência
produtiva como um todo. O zootecnista Bruno Ieda Cappellozza apresentou os
principais mecanismos de ação dos probióticos, com destaque para os efeitos a
nível de rúmen.
No rúmen, os bacilos
utilizados como probióticos são capazes de produzir enzimas que auxiliam na
degradação dos nutrientes presentes nos concentrados, na silagem e até mesmo na
TMR, a dieta com ração totalmente misturada.
Já no intestino, os efeitos podem ocorrer de forma direta e
indireta. Entre os efeitos diretos está a inibição de algumas bactérias
potencialmente patogênicas. Já nos efeitos indiretos, por exemplo, entra o
estímulo à produção de muco que, ao desempenhar um papel de barreira física,
química e biológica, contribui para proteger a integridade do intestino e
reduzir os impactos provocados por agentes patogênicos e micotoxinas.
O doutor chamou atenção para as diferentes abordagens no
uso de probióticos em bezerras e vacas. No caso das bezerras, em que o sistema
imunológico e a microbiota intestinal ainda estão em processo de
desenvolvimento, o uso desses microrganismos benéficos pode ajudar a compor uma
microbiota mais favorável à saúde e ao funcionamento do organismo.
Os probióticos também podem dificultar o crescimento de
bactérias patogênicas e contribuir para a proteção da integridade intestinal.
Entre os possíveis resultados indiretos estão a redução da ocorrência de
diarreias e de pneumonia. “Lembrando que a melhora da saúde das bezerras vai
ter reflexos lá na frente, pois um animal saudável vai crescer, se desenvolver
melhor e isso terá impactos ao longo da vida produtiva", observou.
No caso das vacas, por outro lado, a atuação dos
probióticos envolve principalmente a saúde ruminal e intestinal, favorecendo o
aproveitamento dos nutrientes da dieta. “Probióticos podem contribuir para
melhorar a eficiência alimentar e o desempenho das vacas, especialmente em
fases de maior demanda nutricional e metabólica, como o período de transição e
o início da lactação.”
Entre os indicadores que podem ser impactados estão a
redução da contagem de células somáticas (CCS) e a ocorrência de doenças no
rebanho. Os resultados, entretanto, dependem do uso adequado dos produtos,
incluindo a escolha do microrganismo, da cepa e da dose recomendada.
Um dos pontos salientados por Bruno durante a apresentação
foi a importância de não generalizar o termo probiótico, pois esses aditivos
não são todos iguais. “As bactérias e as cepas não são todas iguais e
apresentam características e mecanismos de ação distintos. Para garantir sua
eficácia, devem ser levadas em consideração as características específicas do
microrganismo utilizado, a dose e a forma de utilização", concluiu.
FONTE LIPÍDICAS
O doutor em Saúde Animal Jonas de Souza abordou o uso de
lipídeos e ácidos graxos e seu papel estratégico na nutrição animal. “Combinar
diferentes ácidos graxos ou combinar diferentes fontes lipídicas, nos permite
melhorar índices de saúde, produção e reprodução em vacas e em animais em fase
de crescimento", explicou.
A
suplementação nutricional se tornou um método indispensável para acompanhar a
rápida evolução dos rebanhos na bovinocultura de leite. A utilização de fontes
lipídicas na alimentação de vacas leiteiras não é uma novidade. A prática é
empregada desde a década de 1980, mas ganhou maior relevância nos últimos dez
anos, impulsionada pelo avanço genético dos rebanhos e pela busca por maior
concentração de sólidos no leite.
Com vacas cada vez mais produtivas, a suplementação
lipídica passou a ser uma ferramenta importante para ajustar as dietas,
especialmente em animais de alta produção. O avanço das pesquisas, entretanto,
permitiu compreender que não basta apenas adicionar gordura à dieta, mas é
necessário considerar quais ácidos graxos estão sendo fornecidos e quais
funções eles podem desempenhar no organismo.
Entre os principais ácidos graxos presentes nas dietas de
bovinos estão o palmítico, esteárico, oleico, linoléico e linolênico. Os dois
últimos estão presentes principalmente em forragens e oleaginosas. “Eles são
importantes, pois são fontes de ômega 6 e ômega 3 na dieta e auxiliam no
balanceamento entre ácidos graxos pró-inflamatórios e anti-inflamatórios",
ressaltou Jonas.
Já o ácido oleico é uma fonte de ômega 9 e tem propriedades
benéficas do ponto de vista da saúde, com efeitos na melhoria da produção de
leite e digestibilidade das gorduras. Na produção leiteira, estudos apontam que
esse aditivo ajuda a estabilizar a insulina no organismo e tem efeitos
relacionados à melhora no consumo de alimento e ao desempenho das vacas,
especialmente no período pós-parto. O ácido esteárico contribui para a
recomposição de escore de condição corporal. O ácido palmítico, por sua vez, é
focado em aumentar a produção de leite corrigida para energia, aumentando a
síntese de gordura do leite.
A expectativa é de que, nos próximos anos, novas
tecnologias e produtos desenvolvidos a partir das pesquisas sobre suplementação
lipídica e o uso de ácidos graxos estejam cada vez mais disponíveis para a
bovinocultura brasileira. “A suplementação lipídica intensificou por conta do
progresso genético e, ao mesmo tempo, pela tendência de aumento de concentração
de sólidos do leite. Tem muitas tecnologias que começam a ser disponibilizadas
no Brasil nesse sentido e vamos ter uma gama de produtos ainda maior nos
próximos anos", afirmou.
Em relação à busca por maior concentração de sólidos no
leite, o especialista avaliou que essa tendência está relacionada às mudanças
no perfil de consumo de derivados, o que aumenta a importância de componentes
como gordura e proteína em relação ao volume de leite produzido.”A indústria
hoje começa a mudar nesse sentido. Se pensarmos no futuro, acho que o Brasil
tem uma grande chance de ser um provedor não só para o mercado interno, mas
também para o mercado externo. Focar em sólidos é o que vai nos tornar
competitivos no mercado externo também", projetou o doutor.