Pesquisador francês Luc Delaby apresenta em Chapecó modelo que combina sêmen sexado, cruzamento com Angus e sistemas a pasto para agregar valor à atividade leiteira
A especialização entre leite e carne pode dar lugar a uma integração capaz de gerar receita adicional dentro da própria fazenda. O pesquisador francês Luc Delaby, do Instituto Nacional de Pesquisa para Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da França (INRAE), apresentou nesta terça-feira (6), em Chapecó, uma estratégia que utiliza parte do rebanho leiteiro para produzir animais destinados ao mercado de carne. A proposta associa seleção genética, cruzamento com Angus e alimentação baseada principalmente em pastagens.
Delaby apresentou a experiência durante o 5º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte, que abriu a programação do 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet). Com cerca de quatro décadas de pesquisa na França, o especialista concentra seus estudos em sistemas de produção leiteira a pasto, eficiência do uso das pastagens e interação entre genética e ambiente.
O modelo apresentado parte de uma mudança importante na reprodução dos rebanhos. O uso de sêmen sexado permite concentrar a produção de fêmeas nas vacas de maior interesse para a reposição do plantel leiteiro. Nas demais, abre-se espaço para a inseminação com genética de corte.
“Com o sêmen sexado, conseguimos produzir as fêmeas necessárias para reposição e liberar algumas vacas para o cruzamento com touros Angus. Esse animal passa a ser um coproduto muito interessante para o produtor de leite”, explicou Delaby.
Carne com base na pastagem
A escolha do Angus responde a características consideradas estratégicas no sistema francês. Segundo Delaby, a raça apresenta facilidade de parto, precocidade, capacidade de deposição de gordura em dietas baseadas em pastagem, ausência de chifres e características de carne compatíveis com a demanda do mercado.
Na experiência conduzida pelo INRAE, touros Angus foram cruzados com vacas Holandesas, Normandas e Jersey. Depois do nascimento e da fase inicial de criação, os animais passam grande parte da vida em pastagens. O objetivo é chegar ao abate em aproximadamente dois anos, com reduzida dependência de concentrados.
Os resultados apresentados mostram pesos próximos de 600 quilos ao abate nos cruzamentos com Holandês e Normando, enquanto os animais originados de Jersey ficaram em torno de 515 quilos. O ganho médio de peso ficou próximo de 700 gramas por dia ao longo do ciclo e chegou a cerca de um quilo diário na fase final. Segundo o pesquisador, essa terminação ocorreu com silagem de gramínea e sem concentrado nos últimos meses.
O sistema utiliza aproximadamente 400 quilos de concentrado por animal durante toda a fase inicial de criação. O restante da dieta tem forte participação de pastagem, silagem e outros volumosos. Para Delaby, a redução do custo alimentar e da necessidade de mão de obra é decisiva para que a produção de carne funcione como atividade complementar à pecuária leiteira. “A maior parte da alimentação desses animais é composta por pasto. A ideia é reduzir trabalho e custo para conseguir aproveitar economicamente esse coproduto”, afirmou.
Mercado orienta a genética
A pesquisa também avaliou carcaça, proporção de músculo, gordura e ossos, além de atributos sensoriais da carne. O rendimento de carcaça ficou próximo de 50%, com diferenças relativamente pequenas entre os cruzamentos. Nos testes de qualidade, Delaby destacou resultados positivos de cor, aparência e maciez.
Para o pesquisador, esses indicadores são relevantes porque o modelo precisa atender simultaneamente à fazenda, à indústria frigorífica e ao consumidor. Uma genética que ofereça facilidade de parto, bom desempenho a pasto e carne valorizada pelo mercado torna o cruzamento mais atraente dentro de um sistema originalmente estruturado para produzir leite.
Essa lógica também responde a uma particularidade francesa. Apesar da tradição pecuária, a França ainda importa parte da carne bovina que consome. Ao mesmo tempo, possui um expressivo rebanho leiteiro, o que abre espaço para aumentar a oferta de carne sem depender exclusivamente da expansão dos plantéis especializados em corte.
Delaby avalia que o avanço das tecnologias reprodutivas mudou esse cenário. Antes, grande parte das inseminações precisava estar voltada à reposição das futuras vacas leiteiras. O sêmen sexado permite selecionar quais animais terão descendentes destinados à continuidade do plantel e quais podem receber genética de corte.
Receita complementar
A principal contribuição do modelo europeu está na transformação de um recurso já existente na propriedade em outra fonte potencial de renda. Em vez de tratar os animais que não serão utilizados na reposição apenas como consequência da produção leiteira, a proposta estabelece um programa específico de cruzamentos, manejo e terminação.
Delaby considera que o sistema reúne condições favoráveis para os diferentes elos da cadeia. O produtor acrescenta valor ao rebanho; a indústria recebe carcaças com características adequadas ao mercado; e o consumidor encontra carne produzida com elevada participação de pastagens e baixo uso de concentrados.
“É uma situação em que todos podem ganhar. Os produtores gostam porque é um coproduto interessante, os frigoríficos encontram a carcaça que procuram e os consumidores valorizam a produção a pasto e a qualidade da carne”, resumiu.
A experiência apresentada em Chapecó também amplia o debate sobre a integração entre cadeias que tradicionalmente operam de forma separada. Em regiões de forte produção leiteira, como o Sul do Brasil, genética, reprodução e manejo alimentar podem criar novas alternativas para aproveitar a estrutura das propriedades e diversificar receitas sem descaracterizar a atividade principal.
O 5º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte integra a programação do 15º SBSBL, que segue até quinta-feira (8), no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó. O encontro deste ano marca os 15 anos do Simpósio e integra as comemorações pelos 55 anos do Nucleovet.
PROGRAMAÇÃO GERAL
TERÇA-FEIRA — 6 DE OUTUBRO
15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
Painel Sistemas de Produção
13h30 — Abertura da programação científica
13h50 — Desafios e potencialidades da produção de silagem de capim para vacas leiteiras
Palestrante: Greiciele de Morais
14h40 — O papel do pastejo na produção e competitividade de sistemas leiteiros modernos
Palestrante: Gabriel Menegazzi
15h30 — Milk break
16h10 — Uso de concentrado para vacas leiteiras em pastejo: por que e quando?
Palestrante: Luc Delaby
17h — Mesa-redonda
17h30 — Abertura oficial
18h — Palestra de abertura: Sucesso tem fórmula?
Palestrante: José Luiz Tejon
19h40 — Coquetel de abertura na Milk Fair
QUARTA-FEIRA — 7 DE OUTUBRO
Painel Sanidade Animal e Reprodução
8h — Estratégias para o controle da leucose enzoótica bovina
Palestrante: Elias Facury Filho
9h — Tripanossomose bovina: diagnóstico e impactos sanitários e econômicos na pecuária
Palestrante: Alexandre Henrily de Souza
10h — Milk break
10h30 — Alinhando fisiologia e sanidade para maximizar a eficiência reprodutiva
Palestrante: Rodolfo Mingoti
11h30 — Mesa-redonda
12h10 — Almoço
Painel Gestão e Qualidade do Leite
13h40 — Gestão da CCS em sistemas leiteiros: pontos críticos e estratégias de melhoria
Palestrante: Luis Pinho
14h40 — Performance do equipamento de ordenha: menos mastite, mais produtividade
Palestrante: Gian Nascimento
15h40 — Mesa-redonda
16h — Milk break
16h45 — Gestão Zootécnica: o que diferencia sistemas confinados rentáveis
Palestrante: Jorge Henrique Carneiro
17h45 — Perguntas ao palestrante e encerramento do painel
18h — Avaliação dos pôsteres
18h30 - Evento Paralelo: Confortin - Sala Agostinho Duarte
Palestra: Além do controle da diarreia: resultados que fazem a diferença na saúde e no desempenho das bezerras!
19h — Happy Hour na Milk Fair
QUINTA-FEIRA — 8 DE OUTUBRO
Painel Nutrição de Alta Performance
8h — Como os probióticos auxiliam os sistemas de produção de leite
Palestrante: Bruno Ieda Cappellozza
9h — O papel das fontes lipídicas na produção, sólidos do leite e saúde de vacas leiteiras
Palestrante: Jonas de Souza
10h — Milk break
10h30 — Alimentação de vacas leiteiras no Brasil — novas abordagens e tecnologias para otimização da produção
Palestrante: Francisco Palma Rennó
11h30 — Mesa-redonda
12h — Encerramento e sorteio de brindes