Palestras abriram a programação do 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), promovido pelo Nucleovet, de hoje (6) até quinta-feira (8), em Chapecó
A pecuária e a agricultura não precisam disputar espaço dentro de uma propriedade. Ao contrário, quando planejadas de forma integrada, as duas atividades podem complementar-se, melhorar o aproveitamento da área e ampliar os resultados econômicos do produtor. Essa foi a principal mensagem apresentada pelo engenheiro agrônomo e pesquisador Sebastião Brasil Campos Lustosa na palestra “Construindo uma lavoura de carne: como aliar a produção de grãos e carne em uma propriedade”, no 5º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte, na manhã desta terça-feira (6). A programação abriu o 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite, realizado pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), de hoje (6) até quinta-feira (8), em Chapecó (SC).
Lustosa propôs uma mudança de olhar sobre a presença dos animais em áreas tradicionalmente destinadas à agricultura. Segundo o especialista, ainda existem paradigmas de que o gado pode compactar o solo ou retirar sua fertilidade. Em um sistema bem conduzido, porém, a relação pode ser justamente o contrário. “O animal recicla. Se bem conduzido, a rentabilidade da pecuária é superior que a de grãos”, enfatizou.
A proposta apresentada parte da integração lavoura-pecuária, utilizando diferentes culturas e pastagens ao longo do ano. No Sul do Brasil, onde as condições climáticas e a ocorrência de geadas diferenciam o calendário agrícola em relação ao Brasil Central, o pesquisador destaca a possibilidade de trabalhar com uma safrinha de pasto de verão. A estratégia permite que uma área utilizada para produção de grãos também seja aproveitada para a produção animal em outro momento do ciclo. Com isso, o produtor amplia o uso da terra e cria novas possibilidades de geração de receita.
De acordo com Lustosa, sistemas de integração podem ser utilizados tanto na pecuária de corte quanto na pecuária de leite e adaptados a propriedades de diferentes tamanhos. A questão está no planejamento das rotações e na forma como as atividades são organizadas. Entre as possibilidades apresentadas está o uso de consórcios de milho com forrageiras. A estratégia pode ser utilizada não apenas para cobertura do solo, mas também para possibilitar períodos de pastejo. “A pecuária não é competidora das áreas de lavoura. É só questão de organização, das rotações, das glebas dentro da propriedade”, reforçou Lustosa.
A lógica é aproveitar diferentes momentos do calendário produtivo. Uma mesma área pode participar da produção de milho, soja e, em outro período, ser utilizada para a produção de carne. “Você consegue ter três safras durante um ano. Tem uma safra de milho, uma safra de boi e uma safra de soja”, exemplificou Lustosa.
O FUTURO DA CARNE BOVINA
Na sequência, o pesquisador Guilherme Cunha Malafaia, da Embrapa Gado de Corte, falou sobre “O Futuro da Carne Bovina Brasileira: Visão 2040”. Para ele, a principal mudança estará na passagem de uma pecuária baseada predominantemente em volume para um modelo no qual eficiência, tecnologia, qualidade, rastreabilidade e diferenciação terão peso crescente. “A pecuária de corte brasileira passará por uma transição estrutural decisiva, abandonando o modelo de volume para se consolidar como uma pecuária de valor e precisão”, afirmou.
Os números apresentados pelo palestrante mostram que o crescimento da produção dependerá da capacidade de produzir mais e melhor nas áreas já disponíveis. Nesse sentido, genética, nutrição, recuperação de pastagens, integração de atividades e gestão passam a ter ainda mais influência sobre a competitividade.
Segundo Malafaia, a área destinada a pastagens no Brasil recuou cerca de 11% nas últimas duas décadas, enquanto a produtividade quase dobrou e se aproxima de cinco arrobas por hectare ao ano. Para 2040, o cenário projetado aponta produção superior a 13 milhões de toneladas de carne bovina, com maior participação de sistemas intensivos e confinados.
Sanidade, rastreabilidade, meio ambiente e tecnologia integram fatores essenciais para posicionar o Brasil no mercado internacional. O reconhecimento obtido em 2025 como país livre de febre aftosa sem vacinação cria oportunidades para ampliar negociações com mercados de maior valor e aumentar a participação de cortes diferenciados nas exportações. A projeção apresentada pelo pesquisador indica que as vendas externas poderão superar 40% da produção brasileira até 2040.
Já a rastreabilidade deverá avançar além do controle sanitário. A identificação individual dos animais poderá reunir dados sobre origem, genética, alimentação, manejo e indicadores ambientais. Quanto à agenda ambiental, Malafaia apontou a expansão dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e a recuperação de pastagens degradadas como caminhos para combinar produtividade com menor impacto ambiental. Além disso, a automação de processos, o uso de inteligência artificial e o monitoramento digital dos rebanhos devem avançar ao mesmo tempo em que o campo enfrenta dificuldades para encontrar trabalhadores especializados.
Para Malafaia, a equação de 2040 integra: tecnologia e nutrição (ciclo curto, genética provada e eficiência biológica), gestão da cria (bezerro em volume e qualidade) e origem comprovada (rastreabilidade individual e narrativa sustentada em dados). Tudo isso resultará em um padrão global e paridade de preço. “O Brasil já venceu a corrida do volume. A corrida até 2040 é a do padrão e só será vencida se nenhum produtor ficar para trás”, concluiu o palestrante.
SOBRE O SBSLB
A programação do 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL) começou nesta terça-feira (6) com o 5º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte, no Centro de Cultura e Eventos em Chapecó, e segue até quinta-feira (8), com palestras sobre sanidade animal, reprodução, qualidade do leite, gestão zootécnica e nutrição de alta performance, além da apresentação de 92 trabalhos científicos e atividades na Milk Fair. O evento celebra 15 anos do SBSBL e 55 do Nucleovet.
PROGRAMAÇÃO GERAL
TERÇA-FEIRA — 6 DE OUTUBRO
15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
Painel Sistemas de Produção
13h30 — Abertura da programação científica
13h50 — Desafios e potencialidades da produção de silagem de capim para vacas leiteiras
Palestrante: Greiciele de Morais
14h40 — O papel do pastejo na produção e competitividade de sistemas leiteiros modernos
Palestrante: Gabriel Menegazzi
15h30 — Milk break
16h10 — Uso de concentrado para vacas leiteiras em pastejo: por que e quando?
Palestrante: Luc Delaby
17h — Mesa-redonda
17h30 — Abertura oficial
18h — Palestra de abertura: Sucesso tem fórmula?
Palestrante: José Luiz Tejon
19h40 — Coquetel de abertura na Milk Fair
QUARTA-FEIRA — 7 DE OUTUBRO
Painel Sanidade Animal e Reprodução
8h — Estratégias para o controle da leucose enzoótica bovina
Palestrante: Elias Facury Filho
9h — Tripanossomose bovina: diagnóstico e impactos sanitários e econômicos na pecuária
Palestrante: Alexandre Henrily de Souza
10h — Milk break
10h30 — Alinhando fisiologia e sanidade para maximizar a eficiência reprodutiva
Palestrante: Rodolfo Mingoti
11h30 — Mesa-redonda
12h10 — Almoço
Painel Gestão e Qualidade do Leite
13h40 — Gestão da CCS em sistemas leiteiros: pontos críticos e estratégias de melhoria
Palestrante: Luis Pinho
14h40 — Performance do equipamento de ordenha: menos mastite, mais produtividade
Palestrante: Gian Nascimento
15h40 — Mesa-redonda
16h — Milk break
16h45 — Gestão Zootécnica: o que diferencia sistemas confinados rentáveis
Palestrante: Jorge Henrique Carneiro
17h45 — Perguntas ao palestrante e encerramento do painel
18h — Avaliação dos pôsteres
18h30 - Evento Paralelo: Confortin - Sala Agostinho Duarte
Palestra: Além do controle da diarreia: resultados que fazem a diferença na saúde e no desempenho das bezerras!
19h — Happy Hour na Milk Fair
QUINTA-FEIRA — 8 DE OUTUBRO
Painel Nutrição de Alta Performance
8h — Como os probióticos auxiliam os sistemas de produção de leite
Palestrante: Bruno Ieda Cappellozza
9h — O papel das fontes lipídicas na produção, sólidos do leite e saúde de vacas leiteiras
Palestrante: Jonas de Souza
10h — Milk break
10h30 — Alimentação de vacas leiteiras no Brasil — novas abordagens e tecnologias para otimização da produção
Palestrante: Francisco Palma Rennó
11h30 — Mesa-redonda
12h — Encerramento e sorteio de brindes