A relação entre nutrição,
saúde e sobrevivência dos animais esteve entre os temas debatidos na manhã
desta quarta-feira (12), durante a programação do 18º Simpósio Brasil Sul de
Suinocultura (SBSS). No Painel Alimentação – Desafios e Oportunidades,
os pesquisadores José Soto, Andres Gomez e Ricardo Hummes Rauber
abordaram, em diferentes perspectivas, como a nutrição, o microbioma
intestinal, o monitoramento e a interpretação de dados podem contribuir para
decisões mais assertivas na produção de suínos.
O Dr. Soto iniciou a
apresentação destacando que a sobrevivência dos suínos permanece como um dos
grandes desafios da produção. Dados apresentados apontaram mortalidade do
nascimento ao abate de aproximadamente 16% no Brasil e 23% nos Estados Unidos,
o que ilustra o impacto produtivo e econômico desse problema. O pesquisador
resumiu essa realidade ao observar que, no cenário brasileiro, cerca de cinco
em cada seis animais nascidos chegam à fase de comercialização.
“A sobrevivência dos animais tem um impacto
econômico. Precisamos entender quais estratégias nutricionais podemos utilizar
para reduzir a mortalidade, aumentar a sobrevivência e melhorar a rentabilidade
da produção”, destacou Soto. Segundo ele, esse é um desafio observado não
apenas no Brasil, mas também em países produtores como Estados Unidos, Canadá e
Espanha.
O palestrante destacou o
programa de pesquisa e desenvolvimento da Alltech nos Estados Unidos,
estruturado para testar soluções em condições comerciais e voltado a desafios
recorrentes da indústria. O programa realiza até 30 experimentos por ano,
principalmente na fase de creche, envolvendo mais de 40 mil suínos em
avaliação, além de parcerias com universidades e sistemas de produção. “São
estratégias que aplicamos em campo e em escala comercial, de maneira
independente ou combinada, e que têm apresentado resultados sobre saúde e
desempenho dos animais”, explicou. Entre as abordagens apresentadas estiveram o
uso de carboidratos funcionais, fibras e acidificantes, além da utilização de
aditivos nutricionais. Para Soto, essas estratégias podem atuar não somente
sobre o desempenho dos leitões após o desmame, mas também sobre a resposta
imunológica e a saúde dos animais desde a fase de matrizes.
Um dos exemplos discutidos
foi a utilização da fração rica em mananos (Mannan-Rich Fraction - MRF) um
carboidrato funcional obtido da parede celular de leveduras. Estudos efetuados
pela equipe do Dr. Soto apresentados na palestra indicam que a estratégia pode
contribuir para dificultar a adesão de bactérias patogênicas à mucosa
intestinal, estimular a resposta imunológica e favorecer a função da barreira
intestinal. Em trabalhos com matrizes, a suplementação também apresentou efeitos
sobre a competência imunológica e o desempenho da progênie, demonstrando a
possibilidade de influenciar a saúde dos leitões já na nutrição materna.
Resultados de experimentos
comerciais com mais de 10,6 mil leitões também foram apresentados pelo
palestrante, para demonstrar o potencial da estratégia sobre a sobrevivência na
fase de creche. Segundo Soto, esse tipo de evidência destaca a necessidade de
avaliar intervenções nutricionais não apenas pelo ganho de peso, mas também por
seus efeitos sobre mortalidade, retirada de animais e capacidade de enfrentar
desafios sanitários.
Outro eixo da palestra foi a
utilização de fibras solúveis e insolúveis nas dietas de leitões. Soto explicou
que as duas possuem características distintas e que a combinação adequada pode
auxiliar na saúde intestinal. Da mesma, forma a acidificação das dietas também
recebeu destaque. O pesquisador explicou que, após o desmame, os leitões passam
por uma mudança brusca de alimentação e ainda apresentam capacidade limitada de
produção de ácido clorídrico. O aumento do pH gástrico pode prejudicar a
digestão de proteínas e favorecer a presença de organismos patogênicos. Por
isso, reduzir a capacidade tamponante da dieta e utilizar acidificantes de
forma estratégica pode favorecer o ambiente gastrointestinal. Os experimentos
apresentados, com o uso de blends de ácidos orgânicos e inorgânicos, indicaram
efeitos positivos dos ácidos para os indicadores zootécnicos e, em determinadas
condições, redução da mortalidade e refugagem dos leitões. Um dos estudos
mostrou redução das dos refugos de 8% para 3,4%, além de aumento na proporção
de animais considerados de valor integral ao final do período analisado.
MICROBIOMA
Na sequência, O Dr. Andres Gomez (Professor da Universidade
de Minnesota-EUA) destacou que saúde e nutrição não devem ser tratadas de forma
separada. Segundo ele, a alimentação pode atuar na modulação da imunidade e da
resiliência sanitária dos suínos, especialmente por meio de estratégias
voltadas ao microbioma intestinal. O pesquisador ressaltou que o intestino
exerce papel central nessa relação. O microbioma intestinal, segundo Gomez,
funciona como um elo entre nutrição, imunidade e desempenho, transformando os
sinais provenientes da dieta em respostas capazes de interferir na função
imunológica.
Entre as estratégias
abordadas estiveram os chamados imunonutrientes, divididos pelo
pesquisador em cinco grandes grupos: fibras, aminoácidos, lipídios, vitaminas e
minerais e estratégias eubióticas. Nesse último grupo o prof. Destacou os
prebióticos, probióticos, pós-bióticos, parabióticos e simbióticos, ferramentas
que podem atuar sobre o microbioma e, consequentemente, sobre a resposta
imunológica dos suínos.
Dr. Gomez explicou ainda que
os parabióticos correspondem a microrganismos inativados que, mesmo sem
estarem vivos, podem trazer benefícios ao organismo, enquanto os pós-bióticos
são metabólitos ou componentes microbianos isolados, sem a presença do próprio
microrganismo. Para ele, esse conjunto de estratégias pode auxiliar na
construção de programas mais preventivos e reduzir, em determinadas situações,
a dependência de medicamentos.
“Quando surge uma doença, a
primeira coisa em que pensamos são os antibióticos. Mas, se tivermos um
programa nutricional adequado para prevenção a longo prazo, talvez não
precisemos depender tanto desses medicamentos”, afirmou. O pesquisador
reforçou, no entanto, que os antibióticos continuam sendo eficazes para
resolver emergências, embora possam impactar negativamente o microbioma
intestinal quando utilizados de forma crônica, reduzindo microrganismos
benéficos e afetando a função imunológica.
Ele também destacou o papel das
fibras fermentáveis na produção de ácidos graxos voláteis, como acetato,
propionato e butirato, relacionados à integridade da barreira intestinal e à
modulação da resposta imunológica.
MICOTOXINAS
Finalizando os debates da manhã, o
médico-veterinário Dr. Ricardo Hummes Rauber destacou que a presença de
micotoxinas não deve ser tratada como um evento isolado. “A pergunta útil
deixou de ser ‘tem micotoxina?’ e passou a ser ‘quanto, com que frequência e o
que eu faço com esse número?’”, destacou durante a apresentação. Dados apresentados
pelo palestrante apontaram presença de fumonisinas em 84,3% das amostras de
ração e em 88,8% das amostras de milho, além de zearalenona em 47,9%
das rações analisadas.
O especialista explicou que os impactos
das micotoxinas podem aparecer de forma produtiva, reprodutiva, entérica e
imunossupressora. Entre as micotoxinas de maior interesse estão aflatoxinas,
deoxinivalenol, zearalenona, fumonisinas, nivalenol, ocratoxina A e toxinas T-2
e HT-2, além de compostos emergentes que ainda são pouco monitorados.
Segundo Dr. Rauber, muitas perdas
ocorrem antes mesmo de sinais clínicos evidentes. Como o consumo abaixo do
esperado, piora na conversão alimentar, maior desuniformidade, falhas na
resposta vacinal, diarreias recorrentes, aumento de refugos e problemas
reprodutivos estão entre os efeitos que podem passar despercebidos. “Às vezes
vemos falhas vacinais ou doenças que teoricamente deveriam estar controladas e
pensamos em muitas coisas antes de pensar em micotoxinas. E a maioria delas
pode causar imunossupressão”, ressaltou.
A qualidade da amostragem foi outro
ponto central da palestra. Dr. Rauber mostrou que a maior parcela da
variabilidade do resultado pode estar justamente na coleta da amostra, e não na
análise laboratorial em si. Em comparações entre amostragem manual e automática
de milho, a etapa de amostragem respondeu por 95% da variância total no método
manual e por 71% no automático.
O palestrante também abordou diferentes
metodologias analíticas, como métodos imunocromatográficos, ELISA, HPLC e
LC-MS/MS, destacando que cada método possui características, aplicações e
limitações próprias. Para ele, monitorar exige consistência e interpretação
adequada, evitando decisões baseadas em um único laudo ou em resultados
analisados fora de contexto.
Como ferramenta para apoiar esse
processo, Rauber apresentou um índice de risco para micotoxinas,
desenvolvido a partir de dados de monitoria. O cálculo considera concentração,
prevalência e sensibilidade de cada categoria animal, gerando um número que
permite uma interpretação padronizada mesmo diante de micotoxinas que trabalham
com escalas muito diferentes.
“O ponto interessante desse cálculo é
que ele utiliza os dados de monitoria e gera um número com uma interpretação
única. Isso ajuda muito quem está no campo, porque quando falamos de aflatoxina
trabalhamos com uma dimensão e, quando falamos de fumonisina, com outra. O
índice organiza isso e auxilia na tomada de decisão”, explicou.
PROGRAMAÇÃO
GERAL
• 18º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura
• 17ª Brasil Sul Pig Fair
QUARTA-FEIRA
(12/08/2026)
Painel
Sanidade - Saúde Respiratória
14h00
às 15h00 – Erradicação de M. hyopneumoniae: Protocolos de Exposição,
Estabilização e Eliminação
Palestrantes:
Gustavo Silva e Paul Yeske
15h00
às 15:30 – Sincronia Sanitária: O Impacto da Aclimatização de Leitoas na
estabilidade do plantel
Palestrantes:
Luciano Brandalise
15h30
às 16h00: Coffee Break
16h00
às 16h40 – Influenza em Foco: Impactos e alternativas de controle
Palestrante:
Ricardo Yuti Nagae
16h45
às 17h25 – Ambiência 4.0: Conectividade, Bem-Estar e Eficiência Energética na
Suinocultura
Palestrante:
Lederson Trindade de Lima
17h35
às 18h00 – Mesa Redonda
18h30
às 19h30 – Evento Paralelo Exclusivo (MSD)
20h00: Happy Hour na PIG FAIR
QUINTA-FEIRA
(13/08/2026)
08h30
às 09h10 – Alimentação de Precisão: Sensores, Conectividade e Eficiência
Nutricional
Palestrante:
Bruno Silva
09h10
às 09h30 – Perguntas
9h30
às 10h00 – Coffee Break
Painel
Pessoas - Gestão e Performance
10h00
às 10h30 – Percepção vs. Realidade: Comunicação Estratégica para Mitigar Erros
e Maximizar Resultados
Palestrante:
Creici Lamonato
10h35
às 11h05 – Capital Humano e Sucessão: Preparando a Próxima Geração e as Equipes
de Alta Performance
Palestrante:
Rogério Facin
11h10
às 11h40 – O Apagão de Mão de Obra e o Desafio da Qualificação
Palestrante:
Anderson Queirós
11h45
às 12h15 – Mesa Redonda
12h15
– Sorteio de brindes e encerramento